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O peso da revitimização: quando denunciar também machuca

O peso da revitimização: quando denunciar também machuca

A repetição de depoimentos e a falta de integração entre os serviços fazem com que crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual revivam o trauma durante a busca por justiça

Imagine uma criança que sofreu um abuso sexual. Caso ela decida revelar o que aconteceu, precisa fazer um primeiro relato para os responsáveis ou professores. Eles vão pedir detalhes. A reação imediata de ambas é conduzir a vítima a uma delegacia, para a lavratura do Boletim de Ocorrência. Ocorre novo relato detalhado. 

Pouco tempo depois, nova peregrinação, dessa vez para o Instituto Médico Legal. É a hora de lavrar o Exame de Corpo de Delito, a fim de produzir a prova do abuso. Novo relato, com novo pedido de passo a passo do que houve. Dias após, ocorre a intimação da delegacia de polícia especializada, para a lavratura do Termo de Declarações, que constará no Inquérito Policial. Novo relato, novo pedido de detalhamento máximo do que aconteceu. 

A mesma coisa ocorre na fase da produção das perícias, tanto a física quanto a psiquiátrica, bem como no momento de transformar a prova investigativa em prova judicial. Ao longo da sucessão de procedimentos destinados à persecução penal dos autores dos crimes de abuso sexual contra crianças e adolescentes, ocorre também uma sucessão de requisições para que a vítima rememore aquele que talvez seja o evento mais doloroso de sua existência. 

Especialistas denominam essa prática de “revitimização”: a repetição do trauma do abuso a partir da necessidade de rememorá-lo seguidamente. “A revitimização é muito mais recorrente do que imaginamos. Muitas vezes, não se respeita a dimensão que o abuso causa na vida de uma criança ou adolescente. Nesse caso, sob o ponto de vista psíquico, relatar equivale a viver novamente a violência. Então, é como se a criança fosse violentada repetidamente”, explica a psicóloga Christina Vieira, especialista em Violência e exploração sexual infantojuvenil pela PUC Goiás. 

A literatura acadêmica especializada também começa a discutir o impacto institucional na ocorrência da revitimização. A edição de setembro de 2025 da Revista Ciências da Saúde traz o artigo “Impactos da revitimização do abuso sexual infantil no desenvolvimento psicológico de crianças de 06 a 12 anos: uma abordagem crítica”, de autoria das psicólogas Ana Cecília Brandalise e Laryssa Karas. 

O estudo discute a repercussão das consequências dessa prática para as vítimas. “A análise crítica sugere que a revitimização não só estende o trauma original, mas também se relaciona com elementos institucionais, familiares e sociais, intensificando os impactos psicológicos e educacionais do abuso sexual infantil”, aponta o estudo. 

CRAIs: uma solução à vista

Em tempos de campanha eleitoral, o tema não poderia ficar de fora dos debates e da proposta de soluções. Quem se debruça com especial dedicação sobre o assunto é a jornalista Arianne Cândido (UB), pré-candidata a deputada estadual. “Me deparei com esse drama das vítimas durante minha experiência como repórter, na cobertura desses casos. O poder público precisa dar uma resposta urgente quanto à revitimização. É necessário que tenhamos a humanidade de, pelo menos, diminuir os impactos devastadores do abuso”, comenta a postulante. 

Institucionalmente, Arianne defende que Goiás adote uma política de implementação de Centros de Referência em Apoio Infantojuvenil (CRAIs): iniciativa surgida no Rio Grande do Sul em 2001 que consiste na reunião, em um mesmo espaço físico, de todo o ciclo de prestação de serviços do Poder Público, tanto no campo do tratamento quanto da persecução penal, cujo objetivo é diminuir o relato da criança ou adolescente vítima de abuso a apenas um evento. 

“Goiás precisa de uma iniciativa como essa. Nos CRAIs, a criança e o adolescente vítima de abuso sexual não previsa fazer uma peregrinação por órgãos de segurança e unidades de saúde, onde ela vai reviver a violência que sofreu em cada um deles. Neles, as vítimas têm equipes especializadas e preparadas para lidar com a situação. E o mais importante: o relato é um só, que é utilizado por toda a cadeia de produção de provas do sistema de Segurança Pública”, explica a pré-candidata. 

Para Arianne, a adoção dos CRAIs pelo estado é das mais urgentes. “Nós vivemos em um mundo onde temos de admitir que nossos filhos estão mais expostos a esse tipo de ameaças. Tão importante quanto prevenir, para evitar que esse tipo de violência aconteça, é tratar com carinho e empatia as vítimas daqueles casos que infelizmente não conseguimos evitar”, salienta a jornalista.

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