ARTIGO: Goiás é seguro, sim… mas não para mulheres e crianças
Goiás é o estado que talvez tenha o perfil de política de Segurança Pública mais peculiar do Brasil. Realizou inegáveis e eficazes avanços na repressão a crimes como assalto a banco, sequestro e infrações de natureza patrimonial de forma ampla. Isso ninguém nega. É uma conquista que os goianos podem, de fato, considerar até mesmo com certo orgulho. A sensação nas ruas valida o que os números em queda de furtos de celulares, roubo de automóveis e furtos de gado demonstram.
Entretanto, quando se parte para os crimes cometidos contra alguns grupos vulneráveis, a situação está longe de ser ideal. E mais: a depender da classificação populacional abordada, o motivo é de vergonha. Duas vítimas nesse rol de desassistidas por essa cultura de tolerância zero contra o crime implementada no estado são um alerta de que nem tudo é céu de brigadeiro na Segurança Pública em Goiás: as mulheres e as crianças e adolescentes.
Os registros de feminicídio em Goiás no primeiro semestre deste ano mais que dobraram em relação ao mesmo período do ano passado. De acordo com números divulgados pelo Ministério da Justiça, nosso estado lidera as estatísticas proporcionais referentes a esse crime contra a vida, cuja motivação central é a condição de gênero feminino. Entre 2018 e 2025, houve um crescimento dos registros de feminicídio em Goiás da ordem de 63%. O cenário é inegável: o assassinato de mulheres devido ao simples fato de serem mulheres está em escalada em território goiano.
Quando se levantam os números da violência contra o outro grupo vulnerável, a situação também é a de um triste crescimento. Os casos de violência contra crianças e adolescentes em Goiás aumentaram de 4.168 ocorrências no primeiro semestre de 2025 para 5.800 no mesmo período deste ano: um aumento de 40%.
Quando se fala no mais violento e aviltante de todos os crimes que podem ser cometidos conta uma criança ou adolescente, o estupro de vulnerável, o cenário não se modifica. Goiás tem três cidades entre os 20 municípios brasileiros com os maiores índices de registro desse tipo de crime: Luziânia está em 13º, Trindade em 15º e Planaltina em 18º.
Os números revelam um Goiás violento e impiedoso em sua forma de tratar aquelas pessoas que estão entre as mais necessitadas de sua proteção.
É possível reverter esse quadro? É evidente que sim. Mas a solução passa por uma abordagem dupla: uma dimensão de curto prazo, relativa facilidade logística e tendente a dar resultados até mesmo no curto prazo. A outra permanece um desafio a demandar um esforço que pode durar gerações.
A primeira dimensão da superação da violência epidêmica contra a mulher, as crianças e os adolescentes em Goiás passa pela própria institucionalidade constituída pelo aparato de Segurança Pública que essa solução deve ser encontrada. É aí que reside a maior esperança de uma resposta rápida. O desempenho de nossas polícias, mesmo nos crimes contra grupos vulneráveis, demonstra o quão comprometidas e eficientes elas são no combate a esses ilícitos. O que falta é, sobretudo, reforço de contingente. O trabalho imprescindível e relevante exercido, a título de exemplo, pelos Batalhões Maria da Penha e Delegacias Estaduais de Repressão aos Crimes Contra a Mulher (DEAMs), precisa de pessoal, por meio da realização de mais concursos públicos.
A segunda frente concentra os esforços mais desafiadores: é preciso promover, na educação dos meninos, uma cultura que consagre os valores de respeito às mulheres. E mais que isso: precisamos compreender a verdadeira dimensão do mandamento constitucional da isonomia: tratar os iguais com igualdade e os diferentes de maneira distinta, na justa medida de suas diferenças. Reconhecer que as mulheres, crianças e adolescentes necessitam de igualdade de condições, porém com medidas peculiares para que essa mesma igualdade possa se manifestar no plano real e efetivo.
Sem uma consciência clara a respeito do papel que cada indivíduo e cada grupo social tem a desempenhar na promoção dessa cultura de respeito aos gêneros e às necessidades de desenvolvimento vinculadas à fase inicial da vida humana, Goiás continuará promovendo o pior tipo de igualdade: a da vala comum.
Arianne Cândido, é jornalista e candidata a deputada estadual pelo União Brasil.